A Trindade
A iconografia da Trindade na Capela da Casa de Retiros de Rondinha
Na Tradição judaico-cristã ‘explica-se’ a dinâmica do DEUS-AMOR pelo mistério da Trindade: Deus é UM e se revela em três pessoas para que nós vivamos em COMUNHÃO com Ele./ COMUM UNIÃO / COM O UM / a fonte da vida. Deus é Pai e se dá e se revela em seu Filho e seu Filho vive para o Pai. Esta REVELAÇÃO (Pai-Filho-Pai), expressa-se na pessoa do Espírito, o Espírito de Amor. Sabemos que estamos em Deus quando vivemos a relação filial de filho no Filho (Jesus) pelo Espírito.
Para uma melhor compreensão, a Trindade se nos apresenta em Gn 18, 1-15: o Senhor se manifesta a Abraão, em sua tenda, debaixo do carvalho de Mambré, sob a forma de Três Anjos ou Três Peregrinos. Deus visita Abraão trazendo-lhe a notícia de sua paternidade e a de sua esposa Sara, na velhice, pais de um grande povo. Abraão os acolhe, lhes serve uma refeição e tem fé nessa promessa. Sara duvida. Assim, Abraão é o nosso pai na fé, o patriarca do povo judeu-cristão. Portanto, cada fiel incorpora Abraão e Sara e terá atitude de fé ou dúvida.
Essa é a IMAGEM bíblica da Trindade, muito ilustrada pelos artistas na Igreja do Primeiro Milênio do Cristianismo e mais na Igreja Oriental, como por exemplo no conhecido ícone da Trindade do monge Andrei Rublev. Nos Evangelhos e em particular no Evangelho de João, Jesus nos fala declaradamente do Mistério da Trindade e indica aos seus seguidores a vida plena neste Mistério.
O ícone da Trindade de Cláudio Pastro em Rondinha- o ícone em sua composição repete a imagem da Tradição baseada em Gn 18,1-15.
- os hospedeiros não estão presentes na cena nem a mesa da refeição, pois, Abraão e Sara “estão em cada um de nós” e a Eucaristia (o pequeno altar do Tabernáculo), a refeição que nos une, está logo à frente.
- os Anjos hóspedes estão sentados na “tenda de Abraão”, isto é, a Capela em si ou “a morada” que cada um de nós é.
- o Anjo da direita corresponde a Deus-Pai. No olhar infinito dos seus desígnios Ele é completamente voltado para o Filho (arquétipo de toda a criação) e, assim, a cada um de nós, filho no seu Filho.
- Ao alto, a Jerusalém celeste, com muitas moradas é a Casa do Pai, nossa única morada, a eternidade para onde peregrinamos.
- o Anjo do centro corresponde ao Filho. É o único que olha para nós: “quem me vê, vê o Pai”. É o Anjo da revelação, a razão do Pai. Sua mão direita está voltada para o Pai e seus dois dedos levantados indica-nos ser Ele a segunda pessoa da Trindade. Sua mão esquerda, para baixo, quer nos dizer que Ele está aqui, presente em nosso meio, na refeição eucarística. Às suas costas está a Árvore da Vida, a Cruz, com a qual ele nos abriu o Paraíso.
- o Anjo da esquerda corresponde ao Espírito. Está completamente voltado para o Filho e o Pai e sua mão esquerda, aberta, apresenta-nos e nos convida a entrar nessa relação amorosa, lá onde nossa vida ganha sentido. De seus pés saem “rios de água viva” que brotam desse Espírito de Amor e de Sabedoria.
O ícone é a Palavra de Deus, não em be-a-bá mas, em formas e cores, como nós, “à imagem e semelhança”, mistério invisível no visível da imagem. O ícone é o prolongamento do Mistério da Encarnação em nossa humanidade.